Crónicas do meu simples quotidiano.

Dou comigo, inesperadamente, à porta do serviço de urgências de um hospital. À minha frente, um homem, velho, ressequido, pequeno e magricela, não esconde o nervosismo que o apoquenta. Anda para a frente e para trás e em cada passo que dá passa a bota pelas calças como que tentando limpá-la. Está sujo, imundo. O corpo franzino esconde-se em roupa com dois tamanhos acima da que deveria vestir. Fuma cigarro atrás de cigarro. Entre um e outro usa o porta-chaves que tem na mão para limpar as unhas imundas, negras, cheias de sujidade e mãos recheadas de calos! Não fosse o porta-chaves e o aspeto de quem trabalha nalgum ofício mais duro, julgava-o sem abrigo. Supus que tinha carro, pareceu-me. Supus que tinha vindo diretamente do trabalho. Olhei as minhas unhas, envernizadas! As dele, mal tratadas! Reparei nele! Ele nem deu por mim! Olho novamente! Olho vezes de mais! Tento fazê-lo de forma discreta! Sei que o conheço! De onde, questiono-me. Quem é, penso! Conheço-lhe o olhar, tenho certeza.  O cabelo, conheço o cabelo! O corpo, aquele corpo franzino, pequeno, não deve ter sequer um metro e sessenta e cinco. Para homem não é grande estatura. O rosto é enrugado, a pele escura, ressequida do sol e de muito tabaco que nele se aloja. Calculo que terá mais de 60 anos. Tenho quase a certeza disso! Não sou boa a adivinhar idades, sou péssima nisso, na verdade. Vem ao seu encontro uma miúda, franzina, que me parece jovem, com menos de 20, mas fico com dúvidas. É companheira? É filha? E não sei! Olho-a novamente. Tem pele lisa, ar jovem, e rosto pesado de quem tem vida difícil. A tez não é luminosa, próprio de quem é jovem. É cinzenta, sem brilho. E olhar apagado, triste. Acho que é filha. É magricela, veste-se mal! Parecem dois sem abrigo ali perdidos pelas urgências…
Tanto olhei! Queria desviar o olhar mas não era capaz! Só pensava “de onde o conheço???!!!”. Eles nem deram por mim! Fui-lhes indiferente, como me foram todos os restantes que se encontravam por ali…
De repente concluo que sei. Sei quem é. Há 30 anos atrás frequentávamos a mesma escola secundária. Era um puto giro, olhos azuis, cabelo louro encaracolado, com ar de surfista, pequenino, do grupo da elite da escola. Fosse mais alto teria resmas de miúdas interessadas nele, mas ainda assim, não se atrapalhava nas relações com o género feminino. Era do grupo dos rapazes interessantes, que praticavam desporto na associação desportiva da cidade, não me recordo qual a modalidade, mas alguma era, todos eles praticavam. Era do grupo dos bons, dos bem sucedidos, dos bem vistos, dos rapazes com sucesso.
Não tem mais de 60 anos. Tem menos de 50. Aparentemente não foi tão bem sucedido quanto eu julgava! E aparentemente (que eu não sei nada da vida de cada um) a vida foi-lhe mais madrasta que mãe!
Recordei o seu nome! Fiquei ali a olhar para os dois… Estava ali a olhar para os dois…
O microfone anuncia: ” Familiar de …”
Era eu. Chamavam-me. Levantei-me e segui pelo banco das urgências adentro…

Sobre Regina

Acerca de mim? Sei lá! Tenho dias… Dias bons, dias maus! Momentos. As nossas vidas são feitas de momentos… Este espaço? É meu. Sobre mim. É o meu espelho… Disseram-me que o meu sorriso é o Espelho da minha Alma. E eu concordo.
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