Cotas

Quando eu era miúda os meus pais falavam das pessoas da sua geração como “é um rapaz assim…”, “uma rapariga da minha idade…”  e sempre me fazia confusão, porque eles (o meu pai e a minha mãe) não eram propriamente rapazes e raparigas!! Eram mais um homem e uma mulher! Nunca jovens!
Como sempre estranhei isto, habituei-me a envelhecer e não me recordo de me colocar no patamar dos rapazes e raparigas desde que me tornei mulher (adulta, das idades maduras) e deixei de ser rapariga (mulher, das idades jovens). As idades, cada uma delas tem o seu encanto, e o facto de deixarmos de ser jovens não significa que deixemos de ter vida, vontade ou beleza. Somos, ficamos diferentes, apenas.
Ainda este fim de semana reencontrei uma amiga da escola primária, já não nos víamos há cerca de 10 anos, e não foi por isso que o nosso encontro, casual e imprevisto, não foi bom e sobretudo como se ainda fossemos as mesmas meninas de outrora e com as mesmas emoções e confidências do tempo de crianças. Vêm à superfície as recordações. Eu estava com as minhas filhas e apresentei-lhes a minha amiga dizendo “esta senhora era amiga de infância da mãe, andámos na escola primária juntas e fomos colegas de carteira”; nada mais simples; no caminho contei-lhes alguns pormenores da nossa vida feliz e da amizade que nos unia, sempre com a versão ‘a minha amiga’, ‘a R’, ‘aquela senhora’.
Isto a propósito da forma como as pessoas falam dos tempos idos, de si próprias e dos seus amigos à data; como se o tempo não tivesse passado e fossem todos os mesmos. Iguais a si próprios, quando as mudanças fisicas são mais que evidentes: eles com barriga gigante, carecas ou pouco cabelo e os que ainda o têm andam cheios de brancos (os grisalhos, quanto a mim, ficam cheios de charme e nalguns casos tornam-me mais belos e interessantes do que quando eram ainda uns chavalos); já elas (nós) pintam o cabelo e na sua maioria sem brancos à mostra, mas no geral menos jeitosas e menos perfeitas, com rugas pelos cantos do rosto, lábios e pescoço que não deixam esconder a idade; uma ou outra ainda conseguem estar elegantes e belas como se ainda estivessem nos finais dos vinte, mas isso é coisa rara!
Ora, esta malta, da minha geração, viveu os seus anos de juventude, como quis, como pôde e como soube, e o que fez está feito, o que viveu está vivido, e o que passou está passado. Actualmente vive com outra idade, a dos cotas, noutro século e noutra modernidade. E é nesta que tem e deve viver, sendo cota, assumindo-se como cota, e vivendo feliz neste papel de pais e/ou avós; com momentos diferentes, umas saídas noturnas diferentes daquelas de quando eram jovens, umas experiências diferentes, apropriadas para esta idade, estes tempos e esta realidade.
Faz-me confusão ver cotas a quererem provar não sei o quê, a não sei quem, que não a eles próprios, que ainda estão (ou querem estar) para as curvas e que a sua jovialidade não se perdeu!!
Saber envelhecer é saber aproveitar cada momento, sem querer reviver o passado, sem querer recuperar o irrecuperável e sem querer ser jovem eternamente. Há momentos, em que temos de ficar com o lugar dos cotas, porque o outro lugar está ocupado pelos jovens, no seu mais pleno direito.

Sobre Regina

Acerca de mim? Sei lá! Tenho dias… Dias bons, dias maus! Momentos. As nossas vidas são feitas de momentos… Este espaço? É meu. Sobre mim. É o meu espelho… Disseram-me que o meu sorriso é o Espelho da minha Alma. E eu concordo.
Esta entrada foi publicada em Pensamentos com as etiquetas , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s